sábado, 6 de janeiro de 2024

MIGRAÇÕES UM DRAMA GLOBAL INSOLÚVEL

As massas humanas que fogem dos seus países de origem tornaram-se um problema com implicações humanitárias, económicas e políticas.

A globalização não trivializou apenas o movimento de mercadorias (de microships a roupa interior, passando por tudo e mais alguma coisa) e as disputas comerciais e militares entre os quatro cantos do planeta; a globalização tornou possível o impossível movimento de milhões de pessoas de um lado para o outro, a maioria em condições desesperantes. Enquanto as alterações climáticas não matarem toda a gente, este problema não parece ter solução, antes tende a agravar-se.

Começo pelas definições, para facilitar a compreensão do tema. Imigrante é o que entra, emigrante é o que sai, isto toda a gente sabe. Menos óbvia e mais contenciosa é a diferença entre migrante económico e refugiado. O primeiro sai da sua terra porque está a passar fome e não tem meios de subsistência à vista; o segundo está a fugir de um regime político que ameaça a sua vida. Há um terceiro grupo, muito mais pequeno e menos problemático, que é o expatriado (expat, em inglês). São as pessoas que mudam do seu país para outro porque gostam mais do clima, têm melhores ofertas de trabalho, aproveitam vantagens fiscais, ou reformaram-se com um rendimento confortável e querem gozar os últimos anos de vida num sítio com melhor lazer. Este grupo não constitui um problema porque emigram voluntariamente e são geralmente recebidos de braços abertos pelo país de destino.

A distinção entre imigrante económico e refugiado é importante porque o estatuto legal é diferente. As convenções internacionais, mais ou menos respeitadas por todos os países, dão ao refugiado o direito legal de residência, enquanto o imigrante pode apenas contar com a boa vontade (ou necessidade de mão-de-obra barata) do país receptor, que varia conforme a política dominante nesse país.

Quando o governo é nacionalista e/ou xenófobo, considera os imigrantes negativamente, como aproveitadores das vantagens sociais, perturbadores da ordem e potenciais delinquentes. Aceder ao estatuto de refugiado - que garante a residência - nem sempre é fácil, porque muitas vezes não é simples de provar que o indivíduo esteja a ser vítima de perseguição política. Um exemplo mais evidente desta situação são os imigrantes que vêem da América Central e do Sul para os Estados Unidos, alegando que são perseguidos por gangues criminosos ou ditaduras violentas; não há documentação do país de origem que o prove.

Mais evidente no sentido contrário são os imigrantes de países como a Síria para a Europa, cujo governo é reconhecidamente selvagem na repressão dos dissidentes. Há também uma situação religiosa potencialmente conflituosa em países como a França ou a Grã-Bretanha, onde os imigrantes/refugiados são muçulmanos e não aceitam os valores da religião cristã.

A excepção é a Alemanha cristã, que não se preocupa com os dois milhões de imigrantes turcos, muçulmanos. Nos países nórdicos (Suécia, Dinamarca, Holanda), que “antigamente” (há dez, vinte anos) recebiam os muçulmanos com naturalidade, as diferenças de valores sociais e comportamento tornaram-se de tal maneira conflituosas que agora são anti-imigração. Finalmente, há a paranóia racista, predominante nos Estados Unidos, onde é conhecida como the great replacement: os imigrantes latinos têm taxas de natalidade muito superiores aos nativos wasp (brancos, anglo-saxónicos protestantes) e eventualmente tornar-se-ão a maioria da população.

Notabanca, 06.01.2024

Sem comentários:

Enviar um comentário