
Prazo para
aplicação do acordo que previa formação de governo consensual termina este mês
de setembro e até agora nada foi feito. Para analista, comunidade internacional
falhou nos esforços para resolução da crise.
O Representante Especial do Secretário-Geral da ONU na
Guiné-Bissau, Modibo Touré, disse em agosto último que o Conselho de
Segurança, junto com representantes da Comunidade Económica
dos Estados da África
Ocidental (CEDEAO) e da Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa
(CPLP), deveriam exigir ao Presidente da Guiné-Bissau,
José Mário Vaz, que cumpra o calendário do Acordo de Conacri, chegando a uma
solução de governação para o país até setembro. O impasse, no entanto, continua.
O Acordo de Conacri prevê a formação de um governo consensual integrado por
todos os partidos guineenses representados no Parlamento e a nomeação de um
primeiro-ministro de consenso e de confiança do chefe de Estado, entre outros
pontos.
Para o politólogo guineense Rui Jorge Semedo, a situação política na
Guiné-Bissau não pode ser analisada de forma isolada, mas num contexto geopolítico,
concretamente no quadro da CEDEAO. E, nesse âmbito, o papel da organização
regional ficou aquém das expetativas dos guineenses.
"O papel da comunidade internacional, a meu ver, é mais paliativo do
que efetivo, no sentido de poder contribuir para a resolução da crise. A CEDEAO
não teve um papel determinante em Guiné-Bissau como teve no caso na
Gâmbia", destaca.
Rui Semedo afirma que a Guiné-Bissau não está a conseguir sair da crise,
porque as instituições não funcionam. O politólogo critica o posicionamento do
presidente guineense, que deixa o país cada vez mais distante de encontrar uma
solução para o imbróglio.
"Ninguém viu no país a contribuição de José Mário Vaz nesse sentido.
Ninguém cumpriu o Acordo de Conacri, nem o Presidente da República, nem os
partidos. Temos um governo sem identidade e o país, desde 2015, está a ser
gerido sem o Orçamento Geral do Estado. Como que isso é possível?",
questiona.
Eleições prejudicadas
Com o aproximar de um período eleitoral sensível, com eleições legislativas
e presidenciais agendadas para 2018 e 2019, o politólogo guineense considera
que a Guiné-Bissau sozinha não terá condições para realizar convenientemente
esses pleitos eleitorais.
"O pior de tudo é deixar esse Governo conduzir o processo eleitoral.
Os partidos que irão concorrer certamente não vão admitir esse Governo. E isso
piora ainda mais a atual crise. Por isso, os guineenses e, sobretudo, a
sociedade civil apelam por uma intervenção mais séria da comunidade
internacional", afirma Rui Semedo.
Apesar dos inúmeros apelos feitos e ultimatos lançados pela comunidade
internacional, a situação permanece na mesma e muitos guineenses já consideram
esta situação como o reflexo de um total desrespeito da classe política do país
pelas decisões tomadas a nível internacional.
Falta de interesse da comunidade internacional
No entanto, diz o politólogo, a própria CEDEAO sabe que tem que fazer
alguma coisa, mas não faz. Da mesma maneira, as Nações Unidas também não estão
a contribuir de forma efetiva. "Os guineenses sabem muito bem que a
comunidade internacional não tem muito interesse na Guiné-Bissau e nunca vão
ter uma ação mais robusta em relação à crise guineense", lamenta.
Segundo o politólogo a população guineense está muito cansada com este
impasse e já chegou ao ponto de não ter muita confiança nos políticos. E isso
poderá conduzir o país a situações indesejáveis, principalmente, porque não
está preparado para uma maior instabilidade.
Rui Semedo afirma que há um desencanto da população em relação à atuação
dos políticos guineenses. "As pessoas estão a ficar descontentes com a
forma com que o país está a ser gerido. O país não conseguiu cumprir com aquilo
que era o ideal democrático. A Guiné-Bissau se arrasta cada vez mais para uma
situação muito degradante", lamenta.
Presidente do Parlamento insiste com PR para cumprir Acordo de Conacri
O presidente do parlamento da Guiné-Bissau, Cipriano Cassamá, voltou a
insistir esta terça-feira (12.09.) no cumprimento do Acordo de Conacri e pediu
ao chefe de Estado, José Mário Vaz, para nomear Augusto Olivais como
primeiro-ministro.
Cipriano Cassamá fez estas declarações em comunidade, depois de na
segunda-feira o Presidente do país, José Mário Vaz, ter afirmado que tentou
reunir-se com as partes signatárias do Acordo em agosto, mas que todos estavam
fora do país.
"Estavam todos no estrangeiro. Às pessoas que estão diretamente
ligadas ao Acordo de Conacri, que são subscritoras do Acordo de Conacri, eu
pergunto sobre o que fizeram para a implementação do Acordo", questionou o
Presidente, em declarações aos jornalistas, no aeroporto de Bissau, antes de
viajar para a República do Congo.
No comunicado, Cipriano Cassamá recorda a José Mário Vaz que "desde a
assinatura, em outubro de 2016, foi o Presidente da República que pediu
sucessivamente a prorrogação do prazo para aplicar o Acordo de Conacri".
"Só resta ao Presidente da República sair das amarras dos 15 (grupo de
dissidentes do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e
do PRS (Partido de Renovação Social) e nomear o primeiro-ministro de consenso
na pessoa de Augusto Olivais e poupar os guineenses que já sofrem o quanto
baste deste deprimente e pouco dignificante espetáculo para as funções que
exerce", refere no comunicado.
Notabanca; 13.09.2017
Sem comentários:
Enviar um comentário