sábado, 1 de outubro de 2022

“A VITÓRIA SERÁ NOSSA!”, GARANTE PUTIN NA PRAÇA VERMELHA

O Presidente russo, Vladimir Putin, garantiu hoje que a Rússia conquistará "a vitória" no conflito com a Ucrânia, num concerto realizado na Praça Vermelha, no centro de Moscovo, para celebrar a anexação de quatro territórios ucranianos.

“A vitória será nossa!”, gritou o Presidente russo, sob os aplausos de uma multidão de vários milhares de pessoas.

“Bem-vindos a casa!”, declarou Putin, dirigindo-se a habitantes dos territórios ucranianos anexados, considerando que estes tinham “regressado à sua pátria histórica”.

“A Rússia não abre só as portas de sua casa às pessoas, ela abre o seu coração”, afirmou ainda, num palco especialmente instalado na emblemática praça junto ao muro do Kremlin (sede da Presidência russa).

Entre a multidão presente, muitas bandeiras russas eram brandidas, e algumas pessoas ostentavam também as fitas de São Jorge, com riscas negras e laranja, uma antiga decoração militar czarista que se tornou um símbolo da vitória do Exército Vermelho sobre a Alemanha nazi.

Vários ecrãs gigantes e um forte sistema de som foram igualmente instalados para permitir às pessoas acompanhar o discurso do Presidente russo e a atuação de várias estrelas da música russa que se apresentaram em palco.

O chefe de Estado russo, no poder há 22 anos, evocou “um dia especial, histórico, de verdade e de justiça”, numa altura em que os soldados russos, segundo ele, “defendem heroicamente a escolha das pessoas” na Ucrânia.

“Faremos tudo para apoiar os nossos irmãos e irmãs em Zaporijia, Kherson, Lugansk e Donetsk, para aumentar a sua segurança, relançar a economia, reconstruir”, afirmou também, algumas horas após ter assinado a anexação dessas quatro regiões ucranianas, numa cerimónia no Kremlin.

Após esse simbólico ato no Kremlin, que representou um novo passo na sua guerra contra a soberania e integridade territorial do país vizinho, Putin defendeu, de microfone em riste, o seu mantra de que a Rússia criou a Ucrânia moderna.

“Não posso deixar de recordar como se formou a União Soviética. Foi a Rússia que criou a Ucrânia moderna, transferindo territórios significativos para lá, os territórios históricos da própria Rússia, juntamente com a população”, disse Putin.

 “Ficamos mais fortes, porque estamos juntos. A verdade está connosco, e na verdade há força” declarou Putin, acrescentando de novo: “Então, a vitória será nossa!”.

Kiev e os seus aliados ocidentais condenaram amplamente tal anexação, tendo-a a NATO (Organização do Tratado do Atlântico-Norte, o bloco de defesa ocidental) classificado como “ilegítima”, ao passo que os países da União Europeia (UE) e do G7 (grupo dos países mais industrializados do mundo: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido) declararam que “nunca reconhecerão [tais] alegadas anexações”.

Segundo o porta-voz do Kremlin, Putin não tenciona, por enquanto deslocar-se às quatro regiões ucranianas agora anexadas por Moscovo, em pleno conflito militar com Kiev.

“Por agora, não, porque neste momento há muito trabalho pela frente, mas tal acontecerá certamente dentro de algum tempo”, disse Dmitri Peskov, citado pelas agências noticiosas russas e questionado sobre a hipótese de tal visita.

As quatro regiões ucranianas ocupadas cujos tratados de anexação Putin hoje assinou correspondem a cerca de 15% do território da Ucrânia – Donetsk e Lugansk (que já reconhecera como repúblicas independentes pouco antes de invadir a Ucrânia), Kherson e Zaporijia (onde se situa a maior central nuclear da Europa).

A ofensiva militar lançada a 24 de fevereiro pela Rússia na Ucrânia causou já a fuga de mais de 13 milhões de pessoas — mais de seis milhões de deslocados internos e mais de 7,5 milhões para os países europeus -, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A invasão russa — justificada por Putin com a necessidade de “desnazificar” e desmilitarizar a Ucrânia para segurança da Rússia – foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que te

m respondido com envio de armamento para a Ucrânia e imposição à Rússia de sanções políticas e económicas.

A ONU apresentou como confirmados desde o início da guerra, que hoje entrou no seu 219.º dia, 5.996 civis mortos e 8.848 feridos, sublinhando que estes números estão muito aquém dos reais.

AINDA, O MAPA DA RÚSSIA E A ALIANÇA DA UCRÂNIA

O dia de hoje não era surpresa para ninguém. A cerimónia de anexação de quatro territórios ucranianos pela Rússia estava marcada para esta tarde na Praça Vermelha, em Moscovo. Lá, o próprio Vladimir Putin falou à nação, sublinhando que os habitantes das regiões ucranianas de Donetsk, Lugansk, Zaporijia e Kherson efetuaram uma opção “inequívoca” para se unirem à Rússia, assegurando que serão protegidos por "todos os meios necessários”.

“É uma decisão inequívoca”, disse Putin num discurso prévio à assinatura dos tratados de anexação com quatro províncias ucranianas na Sala de São Jorge no Grande Palácio do Kremlin, e após os referendos denunciados por Kiev e pelos países ocidentais.

“Os habitantes de Lugansk e Donetsk, Kherson e Zaporijia vão tornar-se cidadãos russos para sempre”, garantiu o Presidente perante a elite política do país. “As pessoas votaram pelo nosso futuro comum”, acrescentou Putin, que também exortou a Ucrânia a “terminar imediatamente as hostilidades”.

“Apelamos ao regime de Kiev para um cessar-fogo imediato, para que termine todas as hostilidades e regresse à mesa das negociações”, indicou no discurso perante o Governo, os deputados e senadores, e outros representantes do Estado russo.

A anexação destas quatro regiões, que correspondem a cerca de 15% do território terrestre da Ucrânia, ocorreu após a realização de referendos não reconhecidos pela comunidade internacional, entre 23 e 27 de setembro.

Os referendos, considerados uma farsa pela comunidade internacional, ocorreram em plena guerra na Ucrânia, que a Rússia invadiu em 24 de fevereiro deste ano.

A Rússia já tinha anexado a península ucraniana da Crimeia em 2014, após um processo idêntico.

A anexação e o pedido de cessar fogo tiveram resposta imediata da Ucrânia e do Ocidente. O país invadido anunciou que formalizou um pedido de adesão acelerada à NATO.

Num comunicado, Vladimir Zelensky disse que a Ucrânia já está “de facto” a caminho de se tornar membro da Aliança Atlântica e demonstrou a sua compatibilidade com os padrões militares da NATO, tanto no campo de batalha como na interação com os aliados.

“Há confiança mútua, ajudamo-nos mutuamente e protegemo-nos mutuamente. Esta é a aliança”, disse.

Do lado ocidental, somaram-se condenações. Numa declaração, os dirigentes dos países da União Europeia afirmaram que “rejeitam e condenam a anexação ilegal” pela Rússia de quatro regiões ucranianas, acusando Moscovo de pôr “a segurança mundial em perigo”.

“Não reconhecemos e nunca reconheceremos os ‘referendos’ ilegais que a Rússia realizou como pretexto para esta nova violação da independência, da soberania e da integridade territorial da Ucrânia, nem os seus resultados falsificados e ilegais. Nunca reconheceremos esta anexação ilegal”, lê-se na declaração.

Também o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, condenou a "tentativa fraudulenta" da Rússia de anexar territórios ucranianos e a diplomacia norte-americana anunciou sanções a mais mil pessoas e empresas envolvidas na invasão.

"Continuaremos a ajudar a Ucrânia nos seus esforços para recuperar o controlo sobre seus territórios", disse Biden, num comunicado, minutos depois de o Presidente russo, Vladimir Putin, ter assinado os tratados de anexação de quatro regiões ucranianas.

A pergunta é: a que ponto chegámos na guerra? No passado, a Rússia tinha colocado a questão da adesão à NATO por parte da Ucrânia como uma linha vermelha que podia fazer escalar o conflito. Tal aviso fez Zelensky recuar... até agora, momento em que o ano de 2014 se repete e Putin volta a roubar território ucraniano.

Notabanca; 01.010.2022

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