CP compra 117 novos comboios. 100 deles serão made in Portugal
Primeiras unidades vão para a Linha de Cascais e substituir comboios com mais de 70 anos de serviço. Novas automotoras serão montadas na zona de Matosinhos, em local que poderá ser transformado em oficina de manutenção para grandes reparações.
Portugal
vai voltar a fabricar comboios nos próximos anos. A CP assinou contrato com os
franceses da Alstom para comprar 117 novas unidades, no valor de 746,042
milhões de euros. A construtora portuguesa DST também está incluída no negócio
e ficará responsável por instalar a unidade de produção em Guifões, no concelho
de Matosinhos. Os franceses terão de fabricar 100 comboios em Portugal, segundo
o contrato publicado no portal Base em 21 de outubro e consultado pelo
24notícias. Como o tempo já está a contar, a primeira automotora elétrica terá
de chegar no prazo de 40 meses, ou seja, no primeiro trimestre de 2029. A
partir daí, serão entregues três unidades múltiplas por mês.
Dos
117 novos comboios, 62 destinam-se ao serviço suburbano e os restantes 55 para
o serviço regional. A Linha de Cascais receberá 34 unidades novas, 25 das quais
serão bi-tensão porque irão circular, durante alguns meses, na única via
ferroviária eletrificada que ainda funciona com 1500 volts em corrente
contínua, ao contrário dos 25 000 volts em corrente alternada que existem nas
restantes linhas eletrificadas. Cada unidade bi-tensão custará mais de 4,2
milhões de euros, mais 90 mil euros do que as automotoras mono-tensão.
No
final de 2029, quando chegarem 25 novas automotoras, será feita a migração da
corrente e a partir daí terão a mesma tensão na catenária do resto da rede
ferroviária, ficando já preparadas para uma futura ligação entre a Linha de
Cascais e a Linha de Cintura de Lisboa. Depois disso, chegarão as restantes
nove unidades, já de mono-tensão. Na Linha de Cascais, o material
circulante foi fabricado originalmente em 1950, 1960 e 1979 nas antigas
oficinas da Sorefame e foi modernizado no final da década de 1990.
Nas
restantes linhas suburbanas de Lisboa, a encomenda servirá para reforçar a
oferta: as linhas de Sintra, Azambuja e Sado receberão as restantes 16
automotoras elétricas da região de Lisboa. A região do Grande Porto poderá
contar com mais 12 comboios elétricos para destinos como Braga, Guimarães,
Aveiro, Leça do Balio/Leixões e Marco de Canaveses.
Terminado
o lote de comboios suburbanos, entrarão nos carris os novos 55 veículos para o
serviço regional, a 4,22 milhões de euros por unidade. As automotoras chegarão
entre 2031 e 2032 e irão substituir mais de 50 unidades da série UTE 2240, com
mais de 50 anos de serviço. A última modernização foi feita entre 2003 e 2005 e
levou estes comboios a ficarem conhecidos, entre os ferroviários, como
"Lili Caneças". Os comboios circularão, por exemplo, nos regionais
entre Entroncamento e Lisboa. Antes disso, a CP irá receber, a partir de 2026,
22 novas automotoras para o serviço regional, 12 das quais serão híbridas e
poderão circular em linhas não eletrificadas, como o Alentejo.
O
contrato entre a CP e a Alstom lembra ainda a opção de encomendar um ou dois
lotes de 18 comboios cada para o serviço suburbano. A opção, que pode ser
acionada até um ano antes da entrega do último comboio suburbano, tem de ser
autorizada pelos ministérios das Infraestruturas e das Finanças – que tomam
conta da CP. A transportadora pública ferroviária já foi mandatada para
apresentar uma proposta. Se tal acontecer, as unidades não podem custar mais do
que no primeiro contrato.
FÁBRICA
TRANSFORMADA EM OFICINA
A
Alstom ganhou o concurso para fabricar 117 novos comboios para a CP batendo a
concorrência da Stadler (Suíça), CAF (Espanha), CRRC (China), Hitachi (Japão) e
o consórcio Siemens/Talgo (Alemanha e Espanha). A construção de uma fábrica, em
parceria com a DST, foi um dos argumentos que ajudaram os franceses a vencer a
contenda. Na nova unidade terão de ser fabricados 100 comboios, segundo o
contrato. Caso tal não aconteça, estão previstas penalizações por unidade no
valor do acordo pago pela CP à Alstom.
Depois
do fabrico dos novos comboios, a unidade de produção será transformada numa
oficina de manutenção, podendo fazer grandes reparações. A Alstom terá de
transferir a propriedade do espaço para a CP. A construção da fábrica irá
custar 28,6 milhões de euros e daqui a seis meses o projeto de execução da obra
tem de ser submetido pela DST à CP. Em 2023, a Alstom adiantou que a fábrica
iria contar com 300 trabalhadores, escreveu na altura o Eco.
LITIGÂNCIA
E ATRASOS CUSTAM FUNDOS EUROPEUS
O
concurso para a compra de 117 comboios elétricos começou no final de 2021 e
deveria ter ficado concluído um ano depois. O preço base foi de 819 milhões de
euros e as primeiras unidades seriam entregues em 2026. Mas o processo
arrastou-se e o consórcio Alstom/DST apenas ganhou a corrida em novembro de
2023. Ainda faltava mais uma etapa: no mês seguinte vieram as duas impugnações
judiciais, por parte dos concorrentes CAF e Stadler, que tinham passado à
última fase. O processo esteve nos tribunais portugueses até agosto de 2025, que
apenas levantaram o efeito suspensivo das impugnações judiciais – a CP ainda
poderá ser condenada a posteriori.
Além
de bloquear o desenvolvimento da CP, o atraso de três anos teve custos para os
contribuintes: inicialmente, pelo menos 75% do orçamento (617 milhões de euros)
viria de fundos europeus e a restante verba do Fundo Ambiental, cujas verbas
têm origem, por exemplo, nas licenças de emissão de carbono. Agora, os fundos
europeus apenas vão contribuir com pouco mais de 15% (117,6 milhões de euros) do
envelope financeiro; o Orçamento do Estado contribuirá com até perto de
416 milhões de euros (mais de metade do contrato) e o Fundo Ambiental ajudará
com até 212,5 milhões de euros. A despesa para os contribuintes apenas será
diminuída caso a CP tenha sucesso na captação de mais financiamento europeu.
Apesar
de nos próximos anos estarem a caminho um total de 175 novos comboios, ainda
faltarão meios para a CP reforçar a oferta de serviço aos passageiros a nível
suburbano, regional e de longo curso. Além da substituição dos comboios
suburbanos de Lisboa e do Porto, que já se aproximam dos 30 anos, será
necessário modernizar ou mesmo substituir mais de uma centena de carruagens do
Intercidades e acrescentar unidades para corresponder à cada vez maior procura
de passageiros. Também serão necessárias mais automotoras para o serviço
regional ter a oferta melhorada.
Notabanca; 27.10.2025

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