segunda-feira, 27 de outubro de 2025

CP compra 117 novos comboios. 100 deles serão made in Portugal

Primeiras unidades vão para a Linha de Cascais e substituir comboios com mais de 70 anos de serviço. Novas automotoras serão montadas na zona de Matosinhos, em local que poderá ser transformado em oficina de manutenção para grandes reparações.

Portugal vai voltar a fabricar comboios nos próximos anos. A CP assinou contrato com os franceses da Alstom para comprar 117 novas unidades, no valor de 746,042 milhões de euros. A construtora portuguesa DST também está incluída no negócio e ficará responsável por instalar a unidade de produção em Guifões, no concelho de Matosinhos. Os franceses terão de fabricar 100 comboios em Portugal, segundo o contrato publicado no portal Base em 21 de outubro e consultado pelo 24notícias. Como o tempo já está a contar, a primeira automotora elétrica terá de chegar no prazo de 40 meses, ou seja, no primeiro trimestre de 2029. A partir daí, serão entregues três unidades múltiplas por mês.

Dos 117 novos comboios, 62 destinam-se ao serviço suburbano e os restantes 55 para o serviço regional. A Linha de Cascais receberá 34 unidades novas, 25 das quais serão bi-tensão porque irão circular, durante alguns meses, na única via ferroviária eletrificada que ainda funciona com 1500 volts em corrente contínua, ao contrário dos 25 000 volts em corrente alternada que existem nas restantes linhas eletrificadas. Cada unidade bi-tensão custará mais de 4,2 milhões de euros, mais 90 mil euros do que as automotoras mono-tensão.

No final de 2029, quando chegarem 25 novas automotoras, será feita a migração da corrente e a partir daí terão a mesma tensão na catenária do resto da rede ferroviária, ficando já preparadas para uma futura ligação entre a Linha de Cascais e a Linha de Cintura de Lisboa. Depois disso, chegarão as restantes nove unidades, já de mono-tensão. Na Linha de Cascais,  o material circulante foi fabricado originalmente em 1950, 1960 e 1979 nas antigas oficinas da Sorefame e foi modernizado no final da década de 1990. 

Nas restantes linhas suburbanas de Lisboa, a encomenda servirá para reforçar a oferta: as linhas de Sintra, Azambuja e Sado receberão as restantes 16 automotoras elétricas da região de Lisboa. A região do Grande Porto poderá contar com mais 12 comboios elétricos para destinos como Braga, Guimarães, Aveiro, Leça do Balio/Leixões e Marco de Canaveses.

Terminado o lote de comboios suburbanos, entrarão nos carris os novos 55 veículos para o serviço regional, a 4,22 milhões de euros por unidade. As automotoras chegarão entre 2031 e 2032 e irão substituir mais de 50 unidades da série UTE 2240, com mais de 50 anos de serviço. A última modernização foi feita entre 2003 e 2005 e levou estes comboios a ficarem conhecidos, entre os ferroviários, como "Lili Caneças". Os comboios circularão, por exemplo, nos regionais entre Entroncamento e Lisboa. Antes disso, a CP irá receber, a partir de 2026, 22 novas automotoras para o serviço regional, 12 das quais serão híbridas e poderão circular em linhas não eletrificadas, como o Alentejo.

O contrato entre a CP e a Alstom lembra ainda a opção de encomendar um ou dois lotes de 18 comboios cada para o serviço suburbano. A opção, que pode ser acionada até um ano antes da entrega do último comboio suburbano, tem de ser autorizada pelos ministérios das Infraestruturas e das Finanças – que tomam conta da CP. A transportadora pública ferroviária já foi mandatada para apresentar uma proposta. Se tal acontecer, as unidades não podem custar mais do que no primeiro contrato. 

FÁBRICA TRANSFORMADA EM OFICINA

A Alstom ganhou o concurso para fabricar 117 novos comboios para a CP batendo a concorrência da Stadler (Suíça), CAF (Espanha), CRRC (China), Hitachi (Japão) e o consórcio Siemens/Talgo (Alemanha e Espanha). A construção de uma fábrica, em parceria com a DST, foi um dos argumentos que ajudaram os franceses a vencer a contenda. Na nova unidade terão de ser fabricados 100 comboios, segundo o contrato. Caso tal não aconteça, estão previstas penalizações por unidade no valor do acordo pago pela CP à Alstom.

Depois do fabrico dos novos comboios, a unidade de produção será transformada numa oficina de manutenção, podendo fazer grandes reparações. A Alstom terá de transferir a propriedade do espaço para a CP. A construção da fábrica irá custar 28,6 milhões de euros e daqui a seis meses o projeto de execução da obra tem de ser submetido pela DST à CP. Em 2023, a Alstom adiantou que a fábrica iria contar com 300 trabalhadores, escreveu na altura o Eco.

LITIGÂNCIA E ATRASOS CUSTAM FUNDOS EUROPEUS

O concurso para a compra de 117 comboios elétricos começou no final de 2021 e deveria ter ficado concluído um ano depois. O preço base foi de 819 milhões de euros e as primeiras unidades seriam entregues em 2026. Mas o processo arrastou-se e o consórcio Alstom/DST apenas ganhou a corrida em novembro de 2023. Ainda faltava mais uma etapa: no mês seguinte vieram as duas impugnações judiciais, por parte dos concorrentes CAF e Stadler, que tinham passado à última fase. O processo esteve nos tribunais portugueses até agosto de 2025, que apenas levantaram o efeito suspensivo das impugnações judiciais – a CP ainda poderá ser condenada a posteriori

Além de bloquear o desenvolvimento da CP, o atraso de três anos teve custos para os contribuintes: inicialmente, pelo menos 75% do orçamento (617 milhões de euros) viria de fundos europeus e a restante verba do Fundo Ambiental, cujas verbas têm origem, por exemplo, nas licenças de emissão de carbono. Agora, os fundos europeus apenas vão contribuir com pouco mais de 15% (117,6 milhões de euros) do envelope financeiro; o Orçamento do Estado  contribuirá com até perto de 416 milhões de euros (mais de metade do contrato) e o Fundo Ambiental ajudará com até 212,5 milhões de euros. A despesa para os contribuintes apenas será diminuída caso a CP tenha sucesso na captação de mais financiamento europeu.

Apesar de nos próximos anos estarem a caminho um total de 175 novos comboios, ainda faltarão meios para a CP reforçar a oferta de serviço aos passageiros a nível suburbano, regional e de longo curso. Além da substituição dos comboios suburbanos de Lisboa e do Porto, que já se aproximam dos 30 anos, será necessário modernizar ou mesmo substituir mais de uma centena de carruagens do Intercidades e acrescentar unidades para corresponder à cada vez maior procura de passageiros. Também serão necessárias mais automotoras para o serviço regional ter a oferta melhorada.

Notabanca; 27.10.2025 

 

 

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