JUVENTUDE AFRICANA: UM BARRIL DE PÓLVORA
77% da população africana tem menos de 35 anos. A frustração cresce entre os jovens sem perspetivas. A DW lança o projeto "Os 77 por cento - em busca do futuro" para dar voz aos jovens que se sentem excluídos em África.
"Não me sinto
representado por ninguém. Os nossos líderes não estão interessados nas
nossas reivindicações". A afirmação é de Emmanuel Ntobi da Tanzânia, que
disse à DW que muitos jovens estão desempregados e têm problemas em
pagar dívidas ou financiar uma formação. "Não temos dinheiro para abrir
um pequeno comércio para melhorarmos um pouco as condições de vida",
lamenta.
Nas plataformas
de social media da DW há um debate aceso sobre o futuro dos jovens em
África. A maioria diz que não se sente representada pelos governos.
Muitas vezes os presidentes têm a idade dos seus avôs.
"Quando olho
para os nossos governantes claro que penso que não nos representam como
deviam", diz Rama Athumani, da Tanzânia. "Obviamente que nos
instrumentalizam em períodos eleitorais, mas depois do voto esquecem-se
completamente de nós".
Frustração crescente
Em todo o
continente africano cresce a frustração dos jovens pela escassez de
oportunidades económicas, a corrupção endémica, a subida do desemprego e
a falta de participação política.
O desemprego é o maior flagelo da juventude africana
Frustrados,
muitos optam por emigrar. O que implica uma viagem muito perigosa, que
inclui travessias do deserto e do Mediterrâneo. Os jovens arriscam a
vida na tentativa de refazer a vida na Europa. É uma viagem que começa
sempre com esperança mas muitas vezes termina no desespero.
Entre janeiro e
novembro de 2017, cerca de 160.000 africanos entraram na Europa pela
rota mediterrânica, segundo estimativas da Organização Internacional da
Migração (OIM). Mais de 3.000 morreram na travessia.
Desde a
tragédia de outubro de 2013 ao largo da ilha italiana de Lampedusa,
quando morreram 360 pessoas, a travessia custou a vida a mais e 15.000
pessoas, segundo a OIM.
Presidentes idosos que se agarram ao poder?
Muitos dos que
partiram estão agora encalhados na Líbia. Na recente cimeira entre a
União Europeia (UE) e a União Africana (UA) na Costa do Marfim, Marrocos
prometeu fornecer aviões para repatriar aqueles que desejam regressar a
casa.
Numa entrevista
à DW antes da cimeira, o Presidente da UA, Alpha Condé, salientou que
os países africanos têm que investir em boa governação e na juventude,
para melhorar a vida das pessoas. O chefe de Estado de 79 anos
acrescentou que a juventude africana é um barril de pólvora que poderá
explodir caso os seus problemas não sejam resolvidos adequadamente.
Mas Condé, que é
Presidente da Guiné-Conacri, não concorda que ele próprio deva
retirar-se do poder por causa da sua idade avançada.
"O problema não
é a idade. É mais importante saber o que é que tem que ser feito para
os jovens. Pode-se ter 30 anos e não fazer nada pela juventude. E
pode-se ter 90 anos e fazer muito pelos jovens. Parece-me que esse
debate está a enveredar pelo caminho errado".
Não é uma
opinião partilhada por muitos jovens. A camaronesa Cyrille Tamatcho
defende que todos os políticos com mais de 70 anos devem passar à
reforma.
"Será que Condé
está a fazer alguma coisa extraordinária pela juventude? Há muita gente
na Guiné e em África com menos de 50 anos que é competente e
suficientemente ambiciosa para resolver os desafios que a juventude
enfrenta", disse Cyrille à DW.
As crianças são o fututo - mas só se tiverem perspetivas
Boubacar
Signate, do Senegal, diz que é a favor de um limite de idade para
impedir que os políticos se perpetuem no poder. "Também podíamos
perguntar: será que sabem colocar um cartão SIM de 4G num telemóvel? A
juventude africana e os seus presidentes não operam nos mesmos sistemas.
Já não há atualização para eles. "Sugiro a introdução de um limite de
idade também os governantes".
Em todo o
continente os jovens parecem estar de acordo num ponto: os seus líderes
não assumem a responsabilidade pelas suas ações. "Temos provas", disse à
DW Richard Yehouenou, do Benim. "Há corrupção e ladroagem. Escondem as
riquezas roubadas na Europa. Fazem acordos desonestos com o Ocidente.
Quando adoecem tratam-se em hospitais noutros continentes. Os filhos
frequentam escolas ocidentais e roubam os nossos recursos. É a
desonestidade total", critica.
Os jovens devem agir
Mas também há
jovens que insistem na própria responsabilidade em mudar as coisas.
"Constato que a maioria dos jovens não se esforça o suficiente para
alcançar posições de topo", disse à DW o tanzaniano Mimwani Keneth. "Não
participam em conferências que debatem os seus problemas", acrescentou.
Mas a verdade é
que há muitos que não têm a preparação suficiente para levantar a voz e
envolver-se ativamente. "50% dos alunos na África do Sul não entram no
ensino secundário. O que representa meio milhão de jovens por ano sem
hipótese de encontrar emprego", disse Alex Smith da Ikamva Youth, uma
organização juvenil sul-africana, que apoia e treina jovens empresários
que são também ativistas.
Os jovens
sentem-se impotentes por causa da falta de educação e transparência
política, acrescentou Smith. Muitos têm dificuldades em sobreviver,
quanto mais encontrar forças para uma maior participação política: "Quem
tem que lutar para encontrar o que comer não tem tempo para marchas de
protesto".
Notabanca; 04.12.2017
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