“GOLPE” SEM PROVAS PAI TERRA RANKA REAGE E COBRA JUSTIÇA
Justiça não provou tentativa de golpe de Estado na
Guiné-Bissau. Coligação prepara petição e cobra responsabilização pela queda do
Governo e danos às instituições. Indeminizações são também exigidas para as
vítimas.
A Coligação Plataforma Aliança Inclusiva (PAI Terra Ranka), vencedora das últimas legislativas na Guiné-Bissau, vai avançar com uma petição nacional e internacional, após a justiça não ter provado que o caso de 1 de dezembro de 2023 - que levou à queda do seu Governo- se tratava de uma tentativa de golpe de Estado, como consideraram as autoridades. Por isso, a coligação exige responsabilização pelas consequências dessa acusação, e um jurista defende a indemnização das vítimas.
O principal visado no caso de 1 de dezembro de 2023, o
ex-comandante-geral da Guarda Nacional (GN), Coronel Victor Tchongo, foi
condenado pelo Tribunal Regional Militar, na semana passada, a oito anos de
prisão efetiva por crimes de sequestro e desobediência.
No entanto, não ficou provado que o confronto entre
elementos da Guarda Nacional, liderados por Victor Tchongo, e da Presidência da
República - ocorrido entre 30 de novembro e 1 de dezembro de 2023, e usado
como justificativa para a dissolução do Parlamento - se tratava de uma tentativa
de golpe de Estado. Na altura, o Presidente
Sissoco Embaló afirmou que se tratava de uma tentativa de golpe
e, por isso, decidiu dissolver o Parlamento, provocando a queda do Governo da
PAI Terra Ranka.
Reagindo à decisão do Tribunal Militar, o líder
interino da Coligação PAI Terra Ranka, Samba Baldé, declarou que todo o
episódio tinha a ver com o "estrangulamento" da democracia guineense
e anunciou: "Vamos fazer uma petição que será apresentada brevemente. O
texto está a ser ultimado e, depois, vamos pedir uma petição nacional, mas
também internacional, sobre esta questão de 1 de dezembro de 2023. Achamos que
isso não pode - e nem deve - voltar a acontecer."
RADAR
DW: MAIS UM GOLPE NA GUINÉ-BISSAU?
"NÃO
HOUVE GOLPE DE ESTADO"
Samba Baldé afirma que tudo não passou de uma farsa
para cumprir uma agenda. "Quem dissolveu a Assembleia Nacional e
derrubou o Governo da PAI Terra Ranka, na altura, tinha o seu propósito.
Portanto, isso não tem nada a ver com golpe de Estado; não houve
golpe de Estado em nenhum momento. Tudo era uma farsa",
acusou.
Outro crítico que também exige responsabilização é o
líder do Movimento Revolucionário Pó de Terra, que tentou recentemente realizar
uma manifestação. Em conferência de imprensa, na última segunda-feira (09.06),
Vigário Luís Balanta disse que o povo quer respostas concretas sobre o caso.
"Disseram que foi golpe de Estado, mas o tribunal julgou o caso e não
referiu isso", alerta.
E questiona: "E agora, quem vamos
responsabilizar? Porque o povo quer a verdade. E, se foi tentativa de golpe, os
autores devem ser responsabilizados. Mas, também, se não foi golpe, por que é
que aqueles que disseram que era não vão ser responsabilizados?"
Victor Tchongo era inicialmente acusado pela
promotoria da justiça militar de sete alegados crimes, mas nenhum deles se
referia a tentativa de golpe de Estado. O militar acabou por ser julgado e
condenado apenas por dois crimes: desobediência e sequestro, tendo sido ainda
expulso das forças armadas.
BISSAU:
ESTADO-MAIOR ASSUME CONTROLO DA GUARDA NACIONAL
ACÓRDÃO DO TRIBUNAL MILITAR
Ao analisar o acórdão do
Tribunal Militar, o jurista Cabi Sanhá alertou que a decisão pode
agravar ainda mais a situação do país, e defendeu uma indemnização às vítimas
que sofreram com uma acusação que “se provou não ter acontecido”.
"Deve regressar-se à situação inicial em que nos
encontrávamos. E isso implicaria, se as regras fossem respeitadas, a reposição
de todas as instituições afetadas - nomeadamente o Parlamento, o Governo e
outras instituições - porque, antes mesmo do julgamento, chegou-se à
conclusão de que era golpe de Estado e tomaram-se medidas que feriram instituições
que nada tiveram a ver com o caso", defende.
Em declaração à DW, o jurista Cabi Sanhá afirmou que,
juridicamente, o Estado pode ser responsabilizado por levantar falsos
testemunhos: "Uma vez que não se provou a existência de tentativa de golpe
de Estado, pode-se, de facto, responsabilizar as autoridades por levantamento
de falsos testemunhos e falsos argumentos para poder acusar as pessoas"
E acrescenta que "isso, de facto, aconteceria se
fôssemos um país onde todos pautassem pelo princípio da legalidade."
Na sua declaração à imprensa, na tarde desta
quarta-feira (11.06), ao regressar do estrangeiro, o Presidente da República
foi questionado sobre o caso e respondeu nos seguintes termos: "Não
comento a posição do
Tribunal porque o Presidente da República não é juiz, é o
primeiro magistrado da Nação. Agora, o juiz decidiu, está decidido, e não posso
comentar mais nada. Se o fizer, estarei a desacreditar a posição do juiz."
Até ao momento, o Estado-Maior das Forças Armadas não
se pronunciou oficialmente sobre a decisão da justiça militar guineense.
Notabanca; 12.06.2025


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